A Lúcia e a Aurora
A Lúcia aprendeu crochê ainda menina, vendo a mãe trabalhar. Fez enxoval, fez tapete para a casa inteira, fez peça para vizinha, para filha, para neta. Fez por gosto a vida toda, sem chamar aquilo de trabalho.
A Aurora tem cinco anos e é a sócia mais nova do ateliê. O emprego dela começou como brincadeira: espalhar os novelos na mesa e escolher quais ficavam bonitos juntos. Hoje as peças da Coleção Aurora saem na ordem de cor que ela monta — e ela faz questão de conferir se a avó obedeceu.
Ela põe os novelos na mesa e diz: esse vai com esse. Eu faço do jeito que ela deixou.
Na feira, a divisão é clara: a Lúcia fica com o crochê na mão, sem parar de trabalhar nem quando a barraca enche, e a Aurora recebe quem chega, mostra as bolsas e conta qual foi ela que escolheu. Muita gente compra por causa dela — e a gente sabe disso.
Como uma peça nasce aqui
Todo o material é barbante de algodão nº 6, o mesmo que a Lúcia usa há décadas: firme o bastante para a bolsa não perder a forma, macio o bastante para o tapete ficar bom no pé descalço. Nas peças de vestir a gente troca para um fio mais fino, que não pesa no calor do litoral.
Uma bolsa leva de 14 a 26 horas de crochê, dependendo do ponto. A do zigue-zague com ponto pipoca é a mais demorada. Um tapete oval, de 16 a 20 horas. Nada aqui é feito em série: a Lúcia faz uma peça de cada vez, do começo ao fim, e por isso não existem duas exatamente iguais.
As sobras de barbante não vão fora. Viram as bolsinhas de mão que a Aurora monta — cada uma nasce do resto de uma peça grande, e é por isso que nenhuma se repete.
De onde a gente fala
Boiçucanga é um bairro de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo. A feira de artesanato acontece na Praça Pôr do Sol, de sexta a domingo, a partir do fim da tarde — e todo dia na alta temporada. É lá que a gente vende há mais tempo, e é lá que a gente prefere entregar: sem frete, sem caixa, com a peça na mão.
O site veio depois, porque muita gente que comprou no verão quis comprar de novo em março, de casa, de outra cidade. Ele existe para isso: continuar a conversa que começou na barraca.
Quer falar com a gente?
Quem responde o WhatsApp é a família. Pode perguntar sobre cor, medida, prazo, presente — e pode pedir foto de outro ângulo antes de comprar, que a gente manda na hora.